No dia 2 e 3 de julho de 2009, nas dependências da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), no auditório da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH), aconteceu a II Jornadas Internacionais de Crítica Genética. O evento abordou os assuntos referentes ao tratamento com documentos de acervos, como rascunhos, esboços, manuscritos e maquetes. As palestras foram ministradas por professores, escritores e estudiosos da área. A reflexão baseou-se na arte de traçar um caminho criador a partir dos materiais preservados.
Os 22 bolsistas de iniciação científica do DELFOS, Espaço de Documentação e Memória Cultural, tiveram a oportunidade de conhecer melhor o universo ao qual recém foram inseridos. A pesquisa em manuscritos, a catalogação e organização de acervos, o cuidado com o passado e a atenção ao registro dos rastros dos escritores, são atividades cotidianas para os jovens estudantes do DELFOS. Porém, a falta do conhecimento técnico e científico tornou o trabalho muitas vezes cansativo e sem significação.
O convite feito pela professora Dr. Alice Therezinha Moreira, para assistirem e participarem das discussões, foi mais do que apropriado. Com os olhos focados nas apresentações, apesar do sono e do mal estar provocado pelas cadeiras, os novos pesquisadores aprenderam que o labor prestado a Universidade é de extrema fundamentação para a produção do conhecimento.
Pela manhã, o professor Dr. Luís Antonio de Assis Brasil (coordenador geral do DELFOS), a professora Dr. Maria Eunice Moreira (diretora da Faculdade de Letras da PUCRS) e a Professora Dr. Gisela Collischonn (coordenadora da PPGL da UFRGS) deram boas vindas aos convidados e introduziram o tema das jornadas. Às 9h houve a explanação do reitor da Universidade Aberta de Lisboa, Dr. Carlos Reis. O professor falou sobre a criação dos escritores, o mito que envolve a criação e a complexidade que é escrever algo de qualidade. Mencionou Almeida Garret, Camões e a obra Os Lusíadas. Com o sotaque português, desmistificou o escritor que escreve por inspiração, e em uma espécie de mágica, as letras correm o braço e desembocam no papel. Esclareceu que o texto é uma estrutura, pensada e repensada e que o manuscrito é a prova das diversas tentativas usadas por um escritor.
À tarde, o espaço foi aberto para a Dr. Eliane Vasconcelos, a qual mostrou um pouco da Casa Rui Barbosa, com cerca de 120 acervos, dentre eles os de Clarice Lispector, Vinícius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade. Eliane também colocou em discussão o modo como os documentos são arquivados e catalogados. A estudiosa criticou o método usado pelos bibliotecários, o sistema Marc, cujos campos não atendem as necessidades dos acervos e são extremamente complicados. Entretanto, avaliou que o método serve para gerir um padrão de registro reconhecido internacionalmente.
O primeiro dia de jornada terminou com a interdisciplinaridade. Três professores de áreas diferentes e coordenadores de Acervos do Delfos revelaram a trajetória dos projetos que coordenam. O Dr. Paulo Bica, professor da faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUCRS e coordenador do Acervo, Theo Wiederspahn, falou da biografia e a relevância do arquiteto. O professor da Faculdade de História da PUCRS, Dr. Luciano Aronne de Abreu, é o responsável pelo acervo do historiador José Honório Rodrigues. Aronne narrou a historia da aquisição do acervo e relatou a maneira como está sendo feita a pesquisa. Por fim, a Dr. Alice Moreira, professora da Faculdade de Letras e incentivadora do projeto Delfos, descreveu a saga dos acervos, os quais pertenciam a unidades individuais, mas com a construção da nova Biblioteca Irmão José Otão, foram institucionalizados e reunidos em um único ambiente, o Delfos.
O segundo dia iniciou com uma plenária dos membros do GT de Crítica Genética da ANPOLL. Cada um deles mostrou como é o seu trabalho. Um deles, italiano, atua como tradutor. Ele afirmou que o ato de traduzir um livro é também o ato de criar, de modo que é preciso ser infiel para ser fiel. Outra pesquisadora é autora de um projeto que visa à publicação dos poemas inéditos de Caio Fernando Abreu. Na sua alocução, houve espaço para o esclarecimento de dúvidas e a discussão sobre a lei de direito autoral vigente no Brasil.
Durante a tarde, o momento foi para descobrir os autores, desvendar o processo de criação, mergulhar nas ideais e compará-las a investigação feita sobre os manuscritos. O professor da Faculdade de História, Dr. René Gertz, contou o modo peculiar como escreveu um livro. Pesquisou em muitos lugares, registrou vários fatos retirados da história, e publicou o livro. Entretanto, não explicou a ligação entre os fatos. Gertz lamentou que os leitores não entenderam sua arte, pois não buscaram conectar os acontecimentos isolados.
Fazer uma obra audiovisual não é obra de um único autor, mas de vários: roteirista, diretor, produtor, ator. O Dr. Carlos Gerbase, professor da Faculdade dos Meios de Comunicação (Famecos/PUCRS), afirmou que um set de filmagem é um ambiente chato e que na maioria das vezes a adaptação cinematográfica deve fugir da obra literária, como uma migração de meios, a fim de atrair o público de forma eficaz. Gerbase também apontou que é fundamental ter um bom personagem para construir um bom filme.
Dá mesma ideia partilhou o escritor Luiz Antonio de Assis Brasil. Com várias obras adaptadas a linguagem cinematográfica, como Cães da Província e Concerto Campestre, declarou que realmente é preciso desviar da obra literária quando o assunto é TV e Cinema. Além disso, Assis Brasil concordou que um personagem humano, com erros e acertos, capaz de fazer o leitor identificar-se é o segredo para um bom livro. O autor de Manhã Transfigurada abriu os arquivos do seu Pen Drive e exibiu os recursos que usa para a edificação de um livro. Assim, foi possível perceber que cada vez mais a Crítica Genética precisará adaptar-se a novas plataformas tecnológicas e ficar atenta aos complexos caminhos que os autores percorrem.
Para os jovens estudiosos que acompanhavam cada palavra dos palestrantes com o olhar vidrado, os dois dias de estudo sobre crítica genética foram reveladores. Como se descobrissem um tesouro nos pequenos objetos do dia-a-dia. Sobretudo, restou a vontade de aprender mais, o desejo de perseverar e as metas para o futuro foram fortalecidas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário